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quinta-feira, 25 de julho de 2013

As presepadas tem seus dias contados

Resposta para Adriana Filgueira:

Acredito que o professor (ex-frei) Leonardo Boff discorda de alguns argumentos trazidos aqui pelos colegas debatedores. Olha que nem sou adepto do Boff. Mas reconheço a importância de seus pronunciamentos.

Há mudanças acontecendo no âmbito interno da Igreja, mesmo na Arquidiocese do Rio. Até o Dom Orani está indo num caminho contrário ao dos antecessores Dom Eugenio e Dom Eusébio, assim como Francisco age diferente de Paulo VI, de João Paulo II e de Bento XVI. Este ano não acabará sem que Dom Orani chegue ao cardinalato.

As presepadas tem seus dias contados. Algumas presepadas só continuarão em nichos específicos, como a RCC. O que ainda acontece de montão por aí são resquícios dos pontificados e governos arquidiocesanos anteriores.

Se os globais e os políticos brasileiros não mudam, é porque em geral são (neo)liberais em todos os sentidos. Suas crenças, ideias e ações diferem muito do que deveria ser o de um católico.

No mais, concordo no que tange à RCC. Aquilo é mais protestantismo pentecostal dentro da Igreja Católica que qualquer outra coisa. É vale tudo, mesmo. Até sertanejo universitário tem lá dentro.

E, realmente, os políticos brasileiros sabem torrar dinheiro. O seu, o meu, o nosso dinheiro.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Os partidos de mentirinha

Resposta para Correio do Brasil:

Precisou apenas aparecer uma personalidade pública dizendo que o país tem partidos de mentirinha pra nossa laboriosa classe política dar pití, como seria esperado. Num país onde não há partidos nacionalistas, nem de direita assumida nem conservadores assumidos, só há partidos genéricos. Praticamente apenas partidos de mentirinha disputam eleições no Brasil. Maus exemplos não faltam. Não dá para levar a sério dois partidos que extirparam o "Liberal" até do nome: DEM e PR. Temos um partido social-democrata que é de "gente diferenciada" e antissocial. O PTB não é trabalhista, o PP não é progressista, o PSB não é socialista e o PMDB pisoteia a história do MDB. O pessoal do PC do B anda muito bem relacionado com a alta burguesia internacional, notadamente a ligada à FIFA e ao COI. Os partidos com C de Cristão são antros de fariseus. Os fariseus tem má fama desde sempre, até na Bíblia, que eles não seguem. O pessoal da ultra-esquerda é falso por natureza. Por fim, aquele Partido de Traidores está longe de defender o trabalho, trabalhadores ou qualquer coisa parecida, variação ou contração.

Como dizia Cazuza: meu partido é um coração partido e as ilusões estão todas perdidas. Deve haver milhões de brasileiros na mesma situação.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Regime militar de 1964 é indefensável até sob uma ótica neoliberal


São pouquíssimas as correntes ideológicas que defendem aquele malfadado regime militar de 1964, que completa hoje 49 anos de início (a um ano do cinquentenário, portanto). Por razões óbvias, todas as correntes de esquerda condenam aquele regime. Alguns condenam o regime integralmente, outros condenam apenas a ideologia de direita, mas não o fato de ter sido um regime fechado, já que até hoje apoiam regimes fechados esquerdistas em outras partes do planeta. Conservadores moderados e direitistas moderados também condenaram aquela quartelada. Os daquela época condenaram o golpismo pelo menos a partir do endurecimento do regime. A ponto de Carlos Lacerda (um dos golpistas de 1964, dos mais radicais) ter passado para a oposição (a partir do fim do sonho de uma candidatura presidencial dele) e ter tido seus direitos políticos cassados e Ulysses Guimarães (outro golpista de 1964) ter passado rapidamente para a oposição logo no início do regime e ter se transformado no maior nome da direita moderada na redemocratização do país.

Os que até hoje aprovam e celebram aquela quartelada de 1964 são os da extrema direita. Há os ultraconservadores (que os esquerdistas e os liberais malandramente chamam de conservadores, sem fazer distinção entre conservadores moderados e os ultraconservadores) não envolvidos na repressão armada, como os antigos servidores da Censura Federal que vetaram a divulgação de inúmeras obras durante o regime. E há também os reacionários da extrema direita propriamente dita. Aquela que celebra com os militares golpistas ainda vivos aquela quartelada todo dia 31 de março, fugindo do dia 1º de abril, por ser o Dia da Mentira e o Dia dos Bobos.

Por outro lado, há hoje neoliberais que não se manifestam favoráveis a qualquer aspecto daquela quartelada de 1964. Há pelo menos duas razões. Uma é que o regime militar criou alguma infraestrutura nacional a partir de empresas estatais, algumas delas privatizadas pelos neoliberais desde os anos 90. Neoliberais chamam qualquer criação de infraestrutura estatal de estatismo, em tom bastante pejorativo. Razão pela qual neoliberais não contestam a privataria de Augusto Pinochet, líder daquela outra quartelada: a de 1º de setembro de 1973. Outro ponto que leva neoliberais de hoje a não celebrarem a quartelada brasileira de 1964 é que neoliberais dizem prezar, sobretudo, a eficiência. Tudo sob uma ótica tipicamente capitalista. Não tem nada de interesse público nessa ótica dos neoliberais. Os golpistas de 1964 dizem até hoje terem vindo para livrar o Brasil do comunismo, que é como eles chamam qualquer coisa que lhes lembre esquerda. Sob uma ótica neoliberal, aqueles golpistas não foram totalmente eficientes, pois se foram vitoriosos na quartelada, exterminaram vidas humanas e deixaram sequelas presentes até hoje, eles não eliminaram a esquerda do cenário nacional. Tanto que hoje vemos esquerdistas no poder (entre eles, ex-presos, ex-torturados e ex-exilados) tendo como coadjuvantes alguns apoiadores da quartelada de 1964 e alguns antigos e novos oposicionistas a aquele regime, numa espécie de ecumenismo do mal. Pra não falar em fisiologismo. Ex-presos, ex-torturados, ex-exilados e ex-golpistas de 1964 se tornaram hoje os maiores escroques da política brasileira. Junto com os neoliberais ainda presentes nas três esferas dos poderes executivo e legislativo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Lincoln (filme)


Filmes retratando a figura do presidente Abraham Lincoln houve vários na história do cinema. Até mesmo um filme francamente fantasioso, em que o presidente era, secretamente, um caçador de vampiros. Filmes idiotas sobre vampiros viraram uma doença no cinema hollywoodiano nos últimos anos. Ironicamente, coube ao historicamente escapista cineasta Steven Spielberg fazer agora um filme realístico sobre o icônico político americano, da Guerra de Secessão ocorrida durante seu mandato até o assassinato (o assassino não é mostrado ou mencionado no filme).

Há anos Spielberg se diz arrependido dos "filmes escapistas" (definição dele) que ele fez no auge de sua carreira. Filmes como Tubarão, E.T. e a saga Indiana Jones, fora os filmes de fantasia que ele produziu, como Gremlins e a saga De Volta Para o Futuro. Meu amigo Alexandre Figueiredo tem razão em criticar canais de TV que tentam enquadrar Steven como um cineasta de filmes de arte ou de cinema alternativo, não como o competente cineasta pop que é. Spielberg diz que passou a fazer mais filmes "sérios" a partir do momento em que ele se tornou pai, dizendo querer deixar um legado permanente que ensinasse algo para os filhos. Filmes na linha de A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, este talvez o melhor da filmografia dele. Mas nem este escapou de alguma pieguice, algo comum em filmes pop ou em filmes de drama feitos por cineastas pop. Não é nada verossímil que um pelotão de militares americanos da Segunda Guerra Mundial fossem destacados apenas para tirar vivo do campo de batalha um único soldado só porque seus três irmãos tinham morrido em combate na mesma guerra.

Talvez o maior mérito de Steven Spielberg neste filme Lincoln tenha sido não interferir na história e deixar o elenco à vontade. Porque é o elenco que faz este filme ser magistral, salvando-o do ar de documentário arrastado e monótono que fatalmente teria se tivesse sido feito por um diretor incompetente ou se tivesse um elenco mediano. O filme também acertou muito em mostrar todos os lados do icônico presidente Lincoln. Lado bom e lado mau, diga-se de passagem. O lado bom mostrado: seu combate à escravidão, iniciado com a Proclamação de Emancipação e tendo seu auge no assunto principal da trama do filme: o processo político que levou à 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos. O lado mau mostrado: para chegar à 13ª Emenda, Lincoln não hesitou em trocar votos de representantes (deputados) democratas que perderam a reeleição em 1864 por cargos de confiança no seu segundo mandato presidencial. Um tipo de relação entre os poderes Executivo e Legislativo que se tornaria rotina em muitos países do continente nos séculos seguintes.

Aqui, alguns parêntesis ausentes no filme: o Partido Democrata era na época um partido ultraconservador, daqueles que conservam o que deveriam e o que não deveriam. O Partido Democrata só viraria para a atual realpolitik de esquerda liberal no século XX. O então novato Partido Republicano (nascido em 1854) tinha sido fundado exatamente para promover o liberalismo econômico, o que incluía a abolição da escravatura. Mesmo assim, o movimento abolucionista não era unanimidade entre os republicanos. O próprio Lincoln (um republicano) era contra a escravidão, mas era inseguro quanto a aderir ao movimento. Só optou por aderir irreversivelmente ao movimento quando viu na Abolição uma oportunidade de dar fim à motivação dos Estados Confederados da América em irem para a guerra civil, e por consequência apressar o fim da própria guerra. Mas, por essa época, Lincoln já estava sendo influenciado por pensadores que se diziam favoráveis à subordinação do capital ao trabalho, como Karl Marx. Algo que seria inadmissível no Partido Republicano a partir do século XX.

Publicado originalmente no Blogue de Delfino em 31 de janeiro de 2013.