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terça-feira, 23 de julho de 2013

General Enxaqueca ignorava dilemas éticos


A Warner continua sua sanha de fazer filmes-pipoca parecerem filmes sérios. Conseguiram um resultado satisfatório em Batman Begins, um resultado pleno em The Dark Knight e fracassaram em The Dark Knight Rises. Depois dessa trilogia, o famoso estúdio americano lançou há mais de um mês o filme O Homem de Aço, que recomeça a história do Superman nos cinemas. Aliás, esse foi o primeiro filme que vi no cinema literalmente com um pacote de pipoca depois de dez anos. Porque o filme anterior que vi da mesma maneira foi Matrix Reloaded, coincidentemente outro filme da Warner.

Não pretendo me estender muito nos mesmos comentários que os críticos de cinema já fizeram a respeito desse O Homem de Aço. Apenas deixo algumas anotações. O filme é absurdamente barulhento (os efeitos sonoros são altos demais e o antagonista General Zod parece o Garoto Enxaqueca: passa o filme todo berrando ou falando de maneira ríspida), as cenas de destruição em Metrópolis são descaradamente um plágio da destruição dos filmes dos Transformers e o roteiro tem uma grande quantidade de furos. A explicação "científica" para os superpoderes do Superman continua tão esdrúxula quanto nas versões anteriores do personagem.

Em relação ao que já foi escrito pelos críticos, compartinho de apenas um ponto positivo: Krypton (planeta natal do Superman) ficou com a cara do Universo Star Wars. Eu sou fã declarado de Star Wars. Mais uma semelhança: O Homem de Aço também apresenta intrigas políticas em um planeta de outra galáxia.

Aqui neste texto, meu objetivo final é deixar algumas impressões de um personagem que os críticos de cinema pouco estão comentando. Exatamente o antagonista do filme: o General Zod, outro kryptoniano. Ele era o general responsável pela segurança de Krypton. Neste filme, ele descobre que os governantes do planeta (que, ao que tudo indica, tem um regime parlamentarista) autorizaram irresponsavelmente a exploração da energia do núcleo do planeta. A operação se tornou um desastre fatal. O núcleo se tornou instável, e a explosão do núcleo e de todo o resto do planeta se tornou uma questão de horas. Tal como vários generais da história aqui da Terra, Zod decidiu usar os erros dos governantes como pretexto para dar um golpe de Estado. Neste filme, o objetivo de Zod é depor o conselho que governa Krypton antes da explosão do planeta. Mas como o mundo deles se autodestruiria, Zod pretendia pegar a matriz genética de todos os habitantes kryptonianos e usar a engenharia genética para criar uma nova civilização da mesma raça, em outro planeta a ser ocupado por Zod e seus asseclas. Vale lembrar que, neste filme, os kryptonianos não se reproduziam naturalmente, pelo método sexuado. Os kryptonianos eram gerados pela engenharia genética e depois eram literalmente cultivados em úteros artificiais fora de qualquer corpo feminino. Kal-El (o futuro Superman) foi o primeiro kryptoniano concebido e gerado por seus pais pelos métodos naturais depois de centenas de anos. Zod e seus asseclas acabaram presos, depois que Zod mata Jor-El (cientista e pai de Kal), mas sem impedir que Kal fosse enviado ainda recém-nascido para a Terra, com a matriz genética dos habitantes de Krypton em suas células. Zod e seus asseclas são aprisionados na Zona Fantasma, e acabam escapando quando a onda da explosão de Krypton os alcança.

O general Zod tinha um sentido de absoluta falta de emoção (a não ser, no caso dele, o mau humor permanente) e raciocínio extremamente lógico e frio (já que os kryptonianos procuravam eliminar as emoções e exaltar a razão). Tudo isso aliado a uma total ausência de ética ou moral, inspirado na sua natureza militar de salvar seu povo passando por cima do que julgasse ser um inimigo ou obstáculo. O resultado é o protótipo perfeito de um político militarista: um antagonista que não enxerga nada além de seu objetivo idealista de salvar sua raça, mas sem se importar com mais nada, nem mesmo com outras vidas. Daí a decisão dele de utilizar as máquinas criogênicas das naves em que os prisioneiros estavam na Zona Fantasma para aproveitar a matriz genética dos kryptonianos do corpo de Kal-El (já que Zod pretendia mata-lo) pra gerar outra civilização kryptoniana no planeta Terra, mas antes tendo que usar as naves para terraformar o planeta, o que acabaria matando todos os terráqueos (provavelmente por hemorragia ou esmagamento, dada à nova biosfera e à força gravitacional diferente) e tornando o planeta habitável para kryptonianos geneticamente modificados. O holograma consciente de Jor-El chega a dizer a Zod que essa operação seria genocídio, mas Zod responde ironicamente, dizendo que estava tomando lições de moral com um fantasma.

Não pretendo contar aqui até que ponto Zod levou adiante seus planos de terraformação e de criação de uma nova civilização kryptiniana. Prefiro deixar para os leitores conferirem por si mesmos. Mas não deixem de prestar atenção nesse personagem, cujos dilemas foram baseados em dilemas que a humanidade terráquea deverá ter. O planeta Terra será inabitável daqui a milhares ou milhões de anos. Até lá, a humanidade terá que decidir como se transferir para outros planetas. A questão da terraformação (se é que isso será viável) se tornará um dilema ético se a ideia for praticada num planeta que já tiver vida orgânica, e mais ainda se tiver vida inteligente.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Os sem-noção do 'Jornal Hoje' exibiram cena final de 'Faroeste Caboclo'


No início da tarde de ontem, o Twitter foi tomado por uma onda de indignação. E por um motivo justo. O alvo era a edição de hoje do JH, que exibiu uma reportagem sobre o novo filme Faroeste Caboclo, a ser lançado nos cinemas no próximo dia 31 e que já está sendo exibido em pré-estreias pelo país afora.

O problema é que a reportagem exibiu trechos da CENA FINAL do filme, com o destino dos principais personagens da trama.

Exibir ou contar o final de um filme é, no mínimo, uma indelicadeza com quem não viu ainda um filme que está nos cinemas ou ainda nem estreou. Na certa, os sem-noção do Jornal Hoje pensam que, como o filme foi inspirado na música homônima (um mega sucesso do rock brasileiro), todo mundo tem que saber que, de fato, o filme acaba de maneira semelhante à trama descrita na música. Como se todo mundo fosse obrigado a curtir o filme já sabendo previamente o que verá na tela e todo mundo conhecesse a música, só porque ela foi um mega sucesso nacional. Aliás, o falecido ator Marcos Paulo disse que não conhecia a música, antes de ser convidado para ser um dos atores coadjuvantes do filme.

Não assisto o Jornal Hoje porque na hora em que o programa é exibido eu estou trabalhando. Mas vi os protestos no Twitter antes de sair pro almoço. Minha mãe viu o telejornal, e chegou a comentar um ato cometido por uma das personagens na cena final. Eu já estou sabendo demais a respeito desse filme! Melhor parar por aqui, pra não incorrer no mesmo erro dos sem-noção do Jornal Hoje.

Dois tuítes sobre o fato aqui e aqui.

sábado, 20 de abril de 2013

Lambanças do governo americano fazem Marvel mudar perfil de itens da franquia Vingadores

Hoje às 22h o canal Telecine Premium lançará na programação da TV paga (sem ser nos sistemas sob demanda ou PPV) o filme The Avengers - Os Vingadores, praticamente um ano depois do lançamento do filme nos cinemas. Há de se anotar que o filme Homem de Ferro 3 (cronologicamente uma continuação de The Avengers - Os Vingadores) estreará nos cinemas na próxima sexta-feira. Analisando a história dessa franquia desde as revistas em quadrinhos (sua mídia original), fica flagrante a mudança que os personagens sofreram ao longo do tempo, mudanças que ficaram maiores nas últimas décadas. Quase todas destinadas a retirar de alguns desses itens seu caráter evidentemente americanista, explorado à exaustão desde a Segunda Guerra Mundial até o fim da Guerra Fria, e para tornar os personagens palatáveis a um mundo cansado das lambanças do governo americano ao longo das décadas.

O personagem mais antigo de todos os Vingadores é o Capitão América, que integrou, segundo a Wikipedia, "uma onda de super-heróis que surgiram sob a bandeira do patriotismo norte-americano e que foram apresentados ao mundo pelas companhias de Histórias em Quadrinhos, durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Ao lado de seu parceiro Bucky, o Capitão América enfrentou as hordas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, mas caiu na obscuridade após o fim do conflito". O personagem (cujo nome de batismo é Steve Rogers) é o típico soldado americano padrão, excelentemente treinado e disciplinado. Como na maior parte da existência nos quadrinhos o personagem estava submetido às ordens de autoridades nomeadas pelo governo americano e na maior parte do tempo ele aparece com um traje e um escudo estilizados que imitam a bandeira americana, o personagem acabou virando um ícone ufanista para os americanos e um ícone do imperialismo americano para qualquer estrangeiro que se sinta minimamente prejudicado pelos interesses e ações dos governos americanos. Só que nem sempre a obediência do capitão Rogers ao governo americano foi incondicional ou correspondida pelo governo. Alguns anos depois da Segunda Guerra, as histórias em quadrinhos mostraram as primeiras divergências do capitão com as autoridades. Rogers chegou a ser proibido de usar o uniforme e o escudo típicos de Capitão América, entregues a outros personagens, fazendo com que Rogers passasse a usar outro uniforme, predominante preto, e passasse a usar a simples alcunha de "O Capitão". Na década de 1970, Steve Rogers se desilude tanto com o governo que abandona o trabalho de capitão e torna-se um nômade. No filme de 2011, a origem do personagem foi recontada. Ele chegou a afirmar ainda no recrutamento em Nova York que não gostava de valentões, sejam de onde forem, e ao longo do filme demonstrou não temer a morte para salvar a vida de outros. Pelo que tenho visto, os fãs mais ferrenhos do personagem reclamam que o uniforme dele para o filme Captain America: The Winter Soldier lembra cada vez menos o uniforme original dos quadrinhos. Menos ainda que o uniforme usado em The Avengers - Os Vingadores.

Outro vingador que passou por mudanças para torna-lo palatável fora do mercado americano é o Homem de Ferro. Devido à longevidade do personagem, sua origem foi contada e recontada várias vezes. Em todas essas versões, Tony Stark é um bilionário da indústria armamentista e maior fornecedor das forças armadas americanas. Só que na atual versão cinematográfica, o personagem viu que as armas criadas por sua indústria estavam sendo desviadas para guerras civis no exterior, o que o convenceu a fechar a divisão de armas de suas indústrias e o fez mudar para o ramo da energia sustentável, em voga na atualidade. O que acaba atraindo a definição irônica do vilão Ivan Vanko de Homem de Ferro 2: "Vem de uma família de ladrões e carniceiros. E agora, como todo culpado, tenta reescrever sua própria história. E esquece todas as vidas que a família Stark destruiu".

Há ainda uma pequena mudança cosmética na estética da organização fictícia S.H.I.E.L.D, que desde as origens nos quadrinhos em 1966 é um organismo fundado pela ONU e bancado pela OTAN. Obviamente os interesses do governo americano jamais são contrariados pela S.H.I.E.L.D, mas na atual versão cinematográfica a Marvel resolveu tirar um vestígio de americanismo da logomarca da organização: um miniescudo que lembrava a bandeira americana, com suas cores, listras e bandeiras. Restou apenas uma ave estilizada (aves integram e integraram brasões de diversos países, até mesmo da Alemanha) e as letras, tudo em cor preta.

Junte-se a tudo isso um último item de internacionalização da franquia Vingadores: a Viúva Negra, que nas origens quadrinescas era uma super-espiã soviética inimiga do Homem de Ferro e que teve um romance com o Gavião Arqueiro e aceitou ingressar na S.H.I.E.L.D.

Parece que essa sanha da Marvel em desamericanizar a franquia dos Vingadores repercutiu nas bilheterias pelo mundo afora. The Avengers - Os Vingadores teve uma receita mundial de US$ 1.511.757.910. O resultado cinematográfico dessa sanha pode ser conferido daqui a pouco no Telecine. Só que não tem bilheteria ou diplomacia que nos faça esquecer que esse filme é um típico arrasa-quarteirão americano, com todos os pontos positivos e negativos possíveis. Mas vale como entretenimento.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Bryan Singer promete corrigir bagunça que Fox fez na cronologia dos filmes da franquia X-Men


Resposta para Judão publicada no Facebook:

Passei o carnaval assistindo esses cinco filmes dos X-Men, inclusive o primeiro solo do Wolverine. O que tem de quebra de continuidade entre o Primeira Classe e os outros quatro filmes, putz... O Xavier fica paraplégico no fim do First Class, aparece andando no filme do Wolverine, andando num flash back do Confronto Final (vinte anos antes da trama do Confronto Final) e de cadeira de rodas em todo o restante da trilogia.

Falam que, nos quadrinhos, vivem trocando a condição física do Xavier. Uma hora com paraplegia, na outra sem, na outra com paraplegia de novo...

Se não consertarem essa bagaça, melhor ressuscitarem a Fênix e convencerem ela a destruir a Fox toda, como fez com aquele monte de soldados, capangas da Irmandade e a fábrica da Worthington Labs em Alcatraz.

Texto publicado originalmente no Blogue do Delfino.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Lincoln (filme)


Filmes retratando a figura do presidente Abraham Lincoln houve vários na história do cinema. Até mesmo um filme francamente fantasioso, em que o presidente era, secretamente, um caçador de vampiros. Filmes idiotas sobre vampiros viraram uma doença no cinema hollywoodiano nos últimos anos. Ironicamente, coube ao historicamente escapista cineasta Steven Spielberg fazer agora um filme realístico sobre o icônico político americano, da Guerra de Secessão ocorrida durante seu mandato até o assassinato (o assassino não é mostrado ou mencionado no filme).

Há anos Spielberg se diz arrependido dos "filmes escapistas" (definição dele) que ele fez no auge de sua carreira. Filmes como Tubarão, E.T. e a saga Indiana Jones, fora os filmes de fantasia que ele produziu, como Gremlins e a saga De Volta Para o Futuro. Meu amigo Alexandre Figueiredo tem razão em criticar canais de TV que tentam enquadrar Steven como um cineasta de filmes de arte ou de cinema alternativo, não como o competente cineasta pop que é. Spielberg diz que passou a fazer mais filmes "sérios" a partir do momento em que ele se tornou pai, dizendo querer deixar um legado permanente que ensinasse algo para os filhos. Filmes na linha de A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, este talvez o melhor da filmografia dele. Mas nem este escapou de alguma pieguice, algo comum em filmes pop ou em filmes de drama feitos por cineastas pop. Não é nada verossímil que um pelotão de militares americanos da Segunda Guerra Mundial fossem destacados apenas para tirar vivo do campo de batalha um único soldado só porque seus três irmãos tinham morrido em combate na mesma guerra.

Talvez o maior mérito de Steven Spielberg neste filme Lincoln tenha sido não interferir na história e deixar o elenco à vontade. Porque é o elenco que faz este filme ser magistral, salvando-o do ar de documentário arrastado e monótono que fatalmente teria se tivesse sido feito por um diretor incompetente ou se tivesse um elenco mediano. O filme também acertou muito em mostrar todos os lados do icônico presidente Lincoln. Lado bom e lado mau, diga-se de passagem. O lado bom mostrado: seu combate à escravidão, iniciado com a Proclamação de Emancipação e tendo seu auge no assunto principal da trama do filme: o processo político que levou à 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos. O lado mau mostrado: para chegar à 13ª Emenda, Lincoln não hesitou em trocar votos de representantes (deputados) democratas que perderam a reeleição em 1864 por cargos de confiança no seu segundo mandato presidencial. Um tipo de relação entre os poderes Executivo e Legislativo que se tornaria rotina em muitos países do continente nos séculos seguintes.

Aqui, alguns parêntesis ausentes no filme: o Partido Democrata era na época um partido ultraconservador, daqueles que conservam o que deveriam e o que não deveriam. O Partido Democrata só viraria para a atual realpolitik de esquerda liberal no século XX. O então novato Partido Republicano (nascido em 1854) tinha sido fundado exatamente para promover o liberalismo econômico, o que incluía a abolição da escravatura. Mesmo assim, o movimento abolucionista não era unanimidade entre os republicanos. O próprio Lincoln (um republicano) era contra a escravidão, mas era inseguro quanto a aderir ao movimento. Só optou por aderir irreversivelmente ao movimento quando viu na Abolição uma oportunidade de dar fim à motivação dos Estados Confederados da América em irem para a guerra civil, e por consequência apressar o fim da própria guerra. Mas, por essa época, Lincoln já estava sendo influenciado por pensadores que se diziam favoráveis à subordinação do capital ao trabalho, como Karl Marx. Algo que seria inadmissível no Partido Republicano a partir do século XX.

Publicado originalmente no Blogue de Delfino em 31 de janeiro de 2013.

Django Livre


Já faz uma semana que estreou o sétimo lançamento do diretor Quentin Tarantino: Django Livre. Trata-se de mais um filme de drama com muita ação, em que Tarantino mexe diretamente com um gênero que sempre o influenciou: o chamado western spaghetti. É um bom filme, mais ainda para quem aprecia algum desses gêneros. Conta com um elenco de nomes já conhecidos. Jamie Foxx ficou com o papel principal: Django, ex-escravo nos Estados Unidos do século XIX (antes da escravidão ser abolida por lá) que, ao ser alforriado, torna-se um caçador de recompensas que passa a caçar seus ex-senhores e ex-capatazes. Christoph Waltz (o oscarizado de Bastardos Inglórios) ficou com o papel de um alemão, caçador de recompensas parceiro de Django. Leonardo DiCaprio aparece como um rico fazendeiro escravocrata e Samuel L. Jackson aparece como o empregado de confiança do personagem de DiCaprio, a ponto de o personagem de Jackson ser tão cruel e racista quanto o patrão escravocrata, mesmo sendo o próprio empregado um negro.

Embora os filmes de Quentin Tarantino sejam bons, ele tem se tornado uma espécie de Ramones do cinema. O que, no caso deles, não é ruim. Os Ramones praticamente regravaram o mesmo disco umas dez vezes. Já o Tarantino fez praticamente o mesmo filme sete vezes. Apenas trocou a história, os personagens, o tempo e as locações. De resto, Django tem todos os elementos que Tarantino faz questão de colocar em seus filmes: tiroteios, sangue jorrando, diálogos longos e complexos, personagens buscando vingança, dança (aqui ficou a cargo do cavalo de Django, em cena impagável) e o fetiche por pés descalços que Tarantino insiste em dividir com o distinto público com closes de pés descalços das atrizes. Se bem que desta vez ele foi super discreto no único close com a atriz que faz o papel da esposa do Django: apenas uma cena banal da mulher dormindo sozinha no quarto escuro. E ainda por cima com a câmera em movimento. Bem diferente da podolatria forçada nos outros filmes.

Mas esse filme traz elementos novos na filmografia de Tarantino. Há aqui tomadas de tiroteios ainda mais arrojadas que nos filmes anteriores. Os elementos mais evidentes são os temas do racismo contra negros e a escravatura que havia nos Estados Unidos até meados do século XIX. O filme faz bem em fazer uma abordagem radicalmente contrária tanto ao racismo quanto à escravatura, mesmo quando deixa os vilões verbalizarem seus pensamentos racistas. Não é uma apologia do racismo. Ao explicitar o racismo, o filme o faz em tom de denúncia, tipo "É mentira que racismo não existe! Olhem estes racistas aqui!". O parceiro alemão de Django mostra logo no início do filme com palavras e atitudes ser contra tanto ao racismo quanto à escravatura. Em que circunstâncias Django conhece seu parceiro de caçadas e como ele obtém a alforria são detalhes que deixo para os leitores descobrirem junto com os outros detalhes ao assistirem o filme.

O tema da escravatura nos Estados Unidos do século XIX também é abordado em outro filme: Lincoln, o novo do Spielberg que está sendo lançado hoje. Mas isso é assunto para outro texto.

Publicado originalmente no Blogue do Delfino em 25 de janeiro de 2013.

'O Espetacular Homem-Aranha' se garante com suspense e com diálogos. Não serve como filme de ação


Apenas no sábado passado acabei de conferir o filme O Espetacular Homem-Aranha, através de uma cópia em Blu-ray. Este filme é bom pra quem gosta de suspense e de diálogos. Pra quem gosta de ação, não serve. Por isso o filme falha na proposta de ser um filme de ação, que é o que esses filmes todos de personagens da Marvel deveriam ser.

Pelo menos deram uma base adequada para o Homem-Aranha pros próximos filmes e mesmo para o milagre de sua participação em Os Vingadores 2. E a estreia do Lagarto em sua forma réptil em filmes também foi boa.

Publicado originalmente no Blogue de Delfino em 2 de janeiro de 2013.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada


Há alguns meses foi reaberto o tradicional cinema Imperator, agora um centro cultural da Prefeitura com três salas de cinema, teatro, espaço para exposições e terraço ao ar livre no alto do prédio onde ficava o antigo telhado. Só conheci o novo Imperator na última terça-feira, ao escolher o local para ver o novo filme O Hobbit: Uma Jornada Inesperada. Vi na sala 1, com direito a imagem 3D. E som original e legendas na tela, porque rejeito filme dublado com todas as minhas forças, sempre que possível. Deixei de ver outros filmes perto de casa e fui pra Botafogo e pra Barra da Tijuca só pra ver aqueles outros filmes com som original e legendas.

Sobre este filme em questão, trata-se do primeiro dos três filmes que o diretor Peter Jackson lançará baseados no livro O Hobbit de J. R. R. Tolkien. Jackson está fatiando (© 2012 - Joaquim Barbosa) o livro em três partes, ou seja, em três filmes. Para delírio do enorme fã-clube de Tolkien espalhado em dezenas de países. E, a julgar por esse primeiro filme da trilogia O Hobbit, o fatiamento está saindo bem feito e consistente.

Acredito que estão exagerando um pouco com alguns elogios a esse primeiro filme da trilogia. Já houve gente dizendo que o filme é melhor do que os da trilogia O Senhor dos Anéis, outra trilogia de Jackson, esta baseada nos três livros da trilogia homônima de Tolkien. Mas também não é um filme inferior. É um filme sensacional com outra abordagem. Enquanto aqueles filmes da saga O Senhor dos Anéis tinham uma abordagem mais clássica, este de O Hobbit tende mais para o atual cinema arrasa-quarteirão, com humor e as acachapantes cenas de ação, que se agravam a cada avanço do protagonista Bilbo Baggins e de seus amigos anões na jornada empreendida por eles. O filme, no entanto, mantêm algo da aura classicona dos da outra trilogia de Jackson, sem se tornar um filme arrasa-quarteirão fútil como tantos que tem por aí. Não entregarei nada da história deste texto. O que apenas faço questão de anotar (e isso não é revelação da história em si) é que fica a impressão de que o protagonista Bilbo Baggins era, de fato, o mais ativo herói hobbit de ação da franquia O Hobbit-O Senhor dos Anéis de Tolkien. Embora o maior herói da franquia seja seu sobrinho Frodo, que mesmo sendo mais contido, foi o único com desprendimento suficiente para levar o lendário Um Anel para ser destruído na mesma montanha vulcânica em Mordor onde o vilão Sauron o havia forjado. Mas essa história da destruição do Um Anel começa apenas na trilogia O Senhor dos Anéis.

Publicado originalmente no Blogue de Delfino em 25 de dezembro de 2012.

Terceiro filme da trilogia de Nolan esculhamba movimento Ocupa


Esse filme Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge é uma bobagem medonha, mesmo sendo tecnicamente bem feito. Christopher Nolan foi profético ao dizer que temia não encontrar uma boa história para suceder a do sensacional filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, este por sua vez sucessor de Batman Begins.

Pra começar, esse filme reproduz com os piores estereótipos possíveis os fatores que geram a paranóia do americano médio. E os tais demônios são exorcizados da pior maneira: com um filme com tantos tiros e bombas quanto qualquer filme de Stallone, Schwarzenegger ou qualquer outro ícone do cinema brutamonte oitentista. Se o Cavaleiro das Trevas tinha um vilão genial e atemporal como o Coringa, este tem o Bane, outro egresso da Liga das Sombras, tal como Ra's Al Ghul no primeiro filme. Só que este Bane é o arquétipo dos preconceitos do americano médio contra os movimentos sociais, notadamente o movimento Ocupa (Ocupa Wall Street, Ocupa Nova York, etc). Qual a melhor maneira de vilanizar um movimento social em filme? Criar uma milícia criminosa que lembre um movimento social com milhares de pessoas, no caso o Ocupa. A milícia de Bane chega a fazer um assalto à Bolsa de Valores de Gotham (clara referência a Wall Street), despoja os ricos de Gotham (quer pecado maior para o americano médio eleitor do Partido Republicano?) e destrói o campo de um estádio de futebol americano lotado (outro símbolo americano). Pra não esquecermos que Bane é um vilão, ele faz um discurso demagógico de que o poder da elite de Gotham deve ser entregue para o povo comum, mas ele mesmo passa meses da história como o déspota de Gotham, agora transformada em "sua" cidade-estado, separada do resto do mundo. Ele só não controla o tribunal da milícia, presidido pelo Espantalho.

Christopher Nolan devia ter deixado a franquia do Batman descansar em paz, e respeitar a memória do ator Heath Ledger, ganhador do Oscar póstumo de melhor ator coadjuvante com o papel de Coringa do filme anterior. Não podia encerrar sua trilogia de filmes do Batman com essa bobajada. E, se for pra falar de milícia, o pessoal do Tropa de Elite 2 fez isso bem melhor. Mesmo não sendo o Tropa 2 nenhuma obra de arte cult.

Publicado originalmente no Blogue do Delfino em 2 de agosto de 2012.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

'Faroeste Caboclo' será o último filme do ator Marcos Paulo

Marcos Paulo foi um dos grandes atores da TV e do cinema nacional. Tido como um dos grandes galãs da dramaturgia brasileira, começou sua carreira na televisão em 1967, na novela O Morro dos Ventos Uivantes, na extinta TV Excelsior. Participou como ator de vários outros trabalhos televisivos na própria TV Excelsior, na TV Bandeirantes, na TV Record e principalmente na Rede Globo, sendo seu último trabalho como ator uma participação especial na novela Desejo Proibido (2007-2008). Seu primeiro trabalho como diretor em televisão foi na novela Dancin' Days (1978-1979), e seu último programa dirigido foi o seriado Os Caras de Pau, iniciado em 2006 e ainda em produção. Foi um dos quatro diretores da novela Roque Santeiro, seu maior sucesso como diretor.

Marcos Paulo fez bem menos trabalhos no cinema. Foi diretor de apenas um filme: o policial Assalto ao Banco Central (2010). Participou como ator de sete filmes, sendo o primeiro Eu Transo, Ela Transa (1972)  e o sexto filme foi Se Eu Fosse Você 2 (2009).

Falecido ontem devido a uma embolia pulmonar, Marcos Paulo deixou um trabalho inédito gravado: seu sétimo filme como ator. Trata-se do filme Faroeste Caboclo, baseado na música homônima composta por Renato Russo e transformada em sucesso pela sua banda Legião Urbana. No filme, Marcos Paulo ficou com o papel do senador Ney, pai de ninguém menos que Maria Lúcia, uma das personagens principais da música e do filme e papel da atriz Ísis Valverde. Ney foi um dos personagens criados especificamente para o filme.

Faroeste Caboclo, o filme, já foi todo rodado. Está em fase de finalização, que está atrasada. Críticos de cinema informam que o filme só deverá estrear agora ao longo de 2013. Por ocasião do lançamento, além das inevitáveis homenagens a Renato Russo, espera-se homenagens também ao ator Marcos Paulo, cujo (agora) trabalho póstumo torna-se mais esperado ainda.

O portal oficial do filme publicou em 8 de novembro de 2011 (já faz mais de um ano) um texto contendo um breve histórico e depoimentos de Marcos Paulo, com comentários sobre seu último personagem.

sábado, 1 de setembro de 2012

Plebe Rude - Circo Voador - 24 de agosto de 2012

Costumam chamar agosto de o mês do desgosto, mas também pode ser chamado de um mês em que acontecem apresentações musicais de bom gosto. No dia 24 de agosto houve a apresentação da Plebe Rude no Circo Voador, local de shows memoráveis da banda, especialmente nos anos de 1984 e 1986, shows esses lembrados pelo vocalista e guitarrista Philippe neste show da semana passada. Esta apresentação foi escorada nas músicas gravadas no CD/DVD Rachando Concreto, gravado ao vivo em Brasília, e também na totalidade do disco O concreto já rachou, o maior clássico da banda.

O show da semana passada foi antológico. A banda continua afiadíssima. Philippe Seabra e Clemente nos vocais e guitarras, Fred Ribeiro no baixo e um xará meu, Marcelo, como o novo baterista. Fred está provisoriamente no lugar de André X. Philippe disse que André X passará uns quatro meses fora do Brasil fazendo cursos, mas que deixou gravados os baixos do novo CD que a banda está preparando.

Mas em se tratando de Plebe Rude, não há roteiro certinho. A banda nunca foi certinha. Pois é uma das precursoras do punk rock de Brasília e do Brasil. A banda fez uma apresentação que me pareceu até maior que a duração do show de Brasília gravado em DVD em 2009. Não me arrisco a escrever aqui o set list do show, mesmo porque eu estava entusiasmado demais pra ficar anotando ou decorando, nem mesmo para contar as músicas. E eu não estava gravando o show. Já me esforçava pra caramba pra ver a banda, cantar e tirar fotos no meio da multidão que lotava o Circo... Do que eu lembro agora, posso dizer que a banda aproveitou o tempo pra resgatar músicas de todos os sete discos da banda. Inclusive a música Mentiras por enquanto, que sempre foi a que mais gostei e que, segundo Philippe, eles só tocaram no Rio (pelo menos na turnê do DVD) a pedido dos amigos da banda no Rio. Três deles estavam na frente do palco e enfartariam ao ouvir a música, segundo Philippe. A banda também enxertou músicas próprias e de outras bandas em várias das músicas do set list. Como Nunca fomos tão brasileiros, Pátria Amada (dos Inocentes, a outra banda do guitarrista Clemente), Geração Coca-Cola (enxertada não lembro em qual música), Selvagem (música dos Paralamas do Sucesso enxertada em Proteção) e até mesmo Aumenta que isso aí é rock'n'roll (enxertada em Até quando esperar pra homenagear o saudoso Celso Blues Boy). A banda também incluiu na íntegra (não enxertada em outras) a clássica Pânico em SP, outra dos Inocentes. Além de Celso Blues Boy, outro finado músico homenageado foi Redson, do Cólera, através da música Medo, incluída na íntegra, mesmo porque já está presente no repertório da Plebe há muitos anos.

A apresentação da música Minha Renda foi antológica. Além de samplearem o Chacrinha apresentando a própria Plebe em seu Cassino do Chacrinha, eles interromperam a música no meio para parodiar com corrosivo sarcasmo vários clichês da música pop descartável e da Música de Cabresto Brasileira, dos iô iô iôs, coros e gestos de mãos de vários gêneros até a pobreza da letra de um tecnobrega que a banda ameaçou tocar, mas ficou só no começo. Tudo isso só para ilustrar o discurso de Philippe contra os esquemões da música descartável de fácil rentabilidade e a favor de um caminho musical mais difícil, mas que é o caminho correto. Philippe também disse que a Plebe nunca mais tocará em rádio. Se o rádio continuar assim, é bom mesmo a Plebe ficar fora do dial.

Philippe também disse que a vantagem de morar em Brasília (onde os integrantes da banda moram, exceto Clemente, de São Paulo) é que Brasília não tem prefeito nem vereador, e por isso não está sendo bombardeada por essa palhaçada da campanha eleitoral que, como bem observou Philippe, está massacrando a nós, cariocas. Disse isso para introduzir a música Vote em branco, que ele lembrou que foi responsável pela prisão da banda toda em 1984, quando eles a tocaram em Patos de Minas, em seu primeiro show fora de Brasília e em plena campanha eleitoral naquele ano. Philippe reforçou toda a mensagem explícita da música, o que de sobremaneira desagradou a militância da candidatura do prefeitável Marcelo Freixo, militância que tinha alguns representantes na plateia. Mesmo assim, Philippe deu votos de boa sorte ao amigo Marcelo Yuka, ex-Rappa e atual candidato a vice-prefeito de Freixo.

É muito Marcelo pra um dia só. Marcelo na bateria, Marcelo Yuka sendo citado (e sendo ele vice de outro Marcelo) e eu na platéia curtindo tudo.

A banda anunciou estar feliz em participar de vários projetos. Além do novo CD/DVD, citou a participação na trilha sonora do filme Federal e a participação no documentário Rock Brasília. Também anunciou novos projetos feitos pela banda ou em que a banda é citada: o filme Somos tão jovens (em que a banda é representada por atores) e o futuro disco de inéditas, que a banda ainda não disse se será lançado apenas no iTunes ou se terá também versão em CD.

Destaco aqui que nunca vi um show com tantas dezenas de pessoas subindo ao palco para cumprimentar os músicos e pular lá de cima em cima da plateia, que fez várias rodas de pogo. Muitas dessas pessoas eram mulheres, e algumas beijavam os integrantes. Clemente até brincou, dizendo que antes a banda apanhava da polícia e hoje é beijada pelas mulheres, e que essa é uma das vantagens de ter ficado velho.

Philippe também anunciou que seu filho nasceu há alguns dias. O garoto ganhou de Clemente o codinome "Seabrinha".

Por fim, a banda disse estar muito feliz em encontrar ainda tantos plebeus (a plateia) no Rio de Janeiro. Plateia que, segundo Philippe, prefere o rock'n'roll à "essa MPB chata dessas novas casas noturnas da Lapa" (palavras dele).

A Plebe Rude pode voltar quantas vezes quiser ao Rio de Janeiro, que sempre encontrará uma platéia grande e entusiasmada. A plebe carioca agradece. Como bem disse Philippe, o rock'n'roll vive, no Rio.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Terceiro filme da trilogia de Nolan esculhamba movimento Ocupa


Esse filme Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge é uma bobagem medonha, mesmo sendo tecnicamente bem feito. Christopher Nolan foi profético ao dizer que temia não encontrar uma boa história para suceder a do sensacional filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, este por sua vez sucessor de Batman Begins.

Pra começar, esse filme reproduz com os piores estereótipos possíveis os fatores que geram a paranóia do americano médio. E os tais demônios são exorcizados da pior maneira: com um filme com tantos tiros e bombas quanto qualquer filme de Stallone, Schwarzenegger ou qualquer outro ícone do cinema brutamonte oitentista. Se o Cavaleiro das Trevas tinha um vilão genial e atemporal como o Coringa, este tem o Bane, outro egresso da Liga das Sombras, tal como Ra's Al Ghul no primeiro filme. Só que este Bane é o arquétipo dos preconceitos do americano médio contra os movimentos sociais, notadamente o movimento Ocupa (Ocupa Wall Street, Ocupa Nova York, etc). Qual a melhor maneira de vilanizar um movimento social em filme? Criar uma milícia criminosa que lembre um movimento social com milhares de pessoas, no caso o Ocupa. A milícia de Bane chega a fazer um assalto à Bolsa de Valores de Gotham (clara referência a Wall Street), despoja os ricos de Gotham (quer pecado maior para o americano médio eleitor do Partido Republicano?) e destrói o campo de um estádio de futebol americano lotado (outro símbolo americano). Pra não esquecermos que Bane é um vilão, ele faz um discurso demagógico de que o poder da elite de Gotham deve ser entregue para o povo comum, mas ele mesmo passa meses da história como o déspota de Gotham, agora transformada em "sua" cidade-estado, separada do resto do mundo. Ele só não controla o tribunal da milícia, presidido pelo Espantalho.

Christopher Nolan devia ter deixado a franquia do Batman descansar em paz, e respeitar a memória do ator Heath Ledger, ganhador do Oscar póstumo de melhor ator coadjuvante com o papel de Coringa do filme anterior. Não podia encerrar sua trilogia de filmes do Batman com essa bobajada. E, se for pra falar de milícia, o pessoal do Tropa de Elite 2 fez isso bem melhor. Mesmo não sendo o Tropa 2 nenhuma obra de arte cult.

sábado, 21 de julho de 2012

Cinema-motel: alta rotatividade nas salas de cinema brasileiras


Salas de cinema no Brasil parecem motéis. Não que haja pessoas fazendo sexo nelas em várias horas do dia. É que os cinemas brasileiros tem, há anos, alta rotatividade. Se nos motéis são os casais que ficam pouco tempo nos quartos, saem e logo depois entram outros casais, nos cinemas os filmes que não são campeões de bilheteria são logo despejados e substituídos por outros. Isso está acontecendo agora, na segunda semana de exibição nacional do filme Na Estrada. A sala de cinema onde vi o filme tinha na semana passada várias sessões diárias, do começo da tarde até uma sessão começando depois da meia-noite. Nesta segunda semana, terá apenas UMA sessão diária, às 13 horas. E olha que é uma sala de cinema de um multiplex (complexo de várias salas de cinema em um único local, com as mesmas bilheterias). Eu disse na semana passada que Na Estrada não se tornaria nenhum estouro de bilheteria. Sendo assim, os gestores das salas de cinema procuram retirar o filme rapidamente de cartaz, para abrir vaga para algum outro não-estouro de bilheteria ou algum desses blockbusters que se sucedem nesta época do ano, que coincide com o fim da primavera e o início do verão dos Estados Unidos, país onde a maioria desses filmes-pipoca são feitos.

Eu lembro de ter acompanhado a trajetória de um filme-pipoca nos cinemas brasileiros: Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith. O filme estreou em centenas de salas pelo país afora, no mês de maio de 2005. Por volta de agosto, o filme estava em cartaz em poucas salas. No Rio de Janeiro, em apenas uma, no cine UCI da Barra da Tijuca, com todas as sessões normais à tarde e à noite, diariamente. Eu mesmo estive na última sessão noturna do filme no Rio, nessa sala, numa noite de quinta-feira. Na semana seguinte e em algumas posteriores, o filme ficou em cartaz em apenas uma sala no Rio (no mesmo UCI Barra) e só na primeira sessão diária da tarde. Depois o filme saiu de cartaz no Rio, e ficou em cartaz apenas em uma sala de São Paulo até sair de cartaz de vez no país.

'Na Estrada', de Walter Salles


Ando ocupado com algumas coisas. Nem tive tempo de colocar no Tributo ao Rádio do Rio de Janeiro as fotos que estou tirando da exposição Maldita 3.0. De modo que só agora arrumei um tempo para escrever esta resenha aqui.

Vi Na Estrada no domingo passado. O filme é muito bom. Tem o mesmo impacto que teve o próprio livro que lhe deu origem: o clássico On The Road de Jack Kerouac. De cara, vemos que a fotografia do filme é de excelente bom gosto. Retrata bem o que eram os Estados Unidos naquele período pós-guerra. A história do filme começa em 1947 e vai até 1951. Ao contrário do que Jack Kerouac recomendou em uma carta escrita para Francis Ford Coppola (reduzir todas as viagens do livro em apenas uma), Walter Salles reproduziu no filme todas as viagens feitas pelo protagonista Sal Paradise (o alter-ego de Kerouac) e seus amigos Dean Moriarty (alter-ego de Neal Cassady) e Marylou pelas estradas americanas. E retrata também a viagem de Sal e Dean rumo ao México, última viagem retratada no filme e no livro.

O filme faz jus ao que se esperava dele. Retrata os anseios daqueles vários alter-egos da Geração Beat em largarem o que estavam fazendo, sair por aí e encontrarem a si mesmos. Os personagens são apaixonados por livros e por bebop (uma variante acelerada do jazz, em voga nas décadas de 1940, 1950 e 1960). Aliás, as cenas em que os personagens estão cantando e dançando em shows ou festas de bebop são das cenas mais bacanas da história do cinema. Desde já. Há também uns toques de folhetim, com a trama de Dean e de suas duas ex-mulheres Marylou e Camille.

Claro que há todos os excessos dos personagens, excessos tornados mais patentes desde a versão manuscrita do On The Road só publicada em 2007. Muito sexo a rodo de várias maneiras e consumo de maconha e chás alucinógenos. Os personagens utilizavam esses excessos para se "soltarem" e para rejeitarem todas as regras. É o retrato de uma época. Dificilmente esses personagens conseguiriam alguma "expansão de consciência" se cometessem os mesmos excessos décadas depois, com o advento da AIDS e de drogas mais destrutivas. Uma amiga minha arrisca dizer que esse filme é inadequado para quem esteja em tratamento de abstinência de drogas. Até o crítico Marcos Petrucelli afirmou serem esses excessos a única coisa negativa do filme. Mas não poderia ser diferente. Está tudo no livro do Kerouac.

Na Estrada acaba sendo, no final de tudo e apesar de tudo, uma excelente obra de Walter Salles (há quem diga ser o melhor filme dele) e uma homenagem à Geração Beat. Talvez o filme não vire nenhum estouro de bilheteria. Em seu primeiro fim de semana em cartaz no Brasil (o fim de semana passado), o filme arrecadou R$ 911.761,00, mesmo sendo lançado em cento e tantas salas pelo país afora. O filme é para ser apreciado como é: um filme de cinema de gente grande, não um filme-pipoca. Acabará virando um autêntico filme "cult", ao contrário de algumas bobajadas oitentistas exibidas por alguns canais de TV paga.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Distribuidores do cinema nacional não lançam clássicos e sucessos em Blu-ray


Chega a ser patético. O Blu-ray venceu em 2008 a disputa pelo posto de formato predominante de venda e distribuição de produções audivisuais em alta definição (HD). Mesmo assim, os distribuidores do cinema nacional resistem em lançar discos Blu-ray de clássicos e de sucessos (não necessariamente clássicos) anteriores a 2008. O único Blu-ray de filme nacional anterior a 2008 que vi ser lançado no Brasil foi o do arrasa-quarteirão Tropa de Elite (2007).

Se alguém se interessar por algum Blu-ray de filme brasileiro anterior a 2008, tem que recorrer a discos importados. Como o do filme Cidade de Deus (2002), lançado nos EUA, no Canadá, na França, na Holanda e no Reino Unido. O Blu-ray americano de Cidade de Deus tem um defeito: não permite retirar as legendas eletrônicas. O disco do filme tem apenas o áudio original (evidentemente em português), mas obriga o usuário a ver o filme com legendas em inglês ou francês, já que o disco americano é uma cópia do disco canadense. O som 5.1 e a imagem gravados são sensacionais. Mas é necessário ignorar as legendas em idioma gringo passando no rodapé da tela. A Miramax (distribuidora do Blu-ray americano) imagina que seus clientes originais (americanos, principalmente) não se interessam em aprender português, para ouvir o som original sem recorrer a legendas. Só falta chama-los de burros.

Enquanto isso, os distribuidores brasileiros só lançam em Blu-ray no Brasil os filmes nacionais produzidos de 2008 para cá. Os anteriores seguem sendo disponibilizados em HD no Brasil apenas para transmissões em canais de TV HD.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Chega aos cinemas a adaptação de 'On The Road'


Obra-prima do escritor Jack Kerouac, o livro On The Road ganha hoje sua adaptação cinematográfica. O filme francês falado em inglês está estreando no Brasil antes mesmo das estreias na França e nos Estados Unidos. Em parte, isso pode ser atribuído ao fato de o filme ser dirigido pelo cineasta brasileiro Walter Salles, escolhido a dedo pelo produtor Francis Ford Coppola para a tarefa.

Li On The Road há alguns anos. O livro é absolutamente autêntico ao retratar a época do pós-guerra através da história fictícia de um grupo de jovens que resolvem viajar pelas estradas americanas para encontrar amigos e ter novas experiências. É uma obra que engrandece a mente de qualquer um que lê. Comigo foi assim. Poucos livros me foram tão impactantes como esse. Não a parte dos excessos dos personagens, mas a busca deles por liberdade e amigos. O exemplar que li é uma tradução da versão lançada por uma editora americana em 1957, que só aceitou lança-lo depois de suprimir uma série de páginas. Mesmo assim, o livro não deixou de ser uma obra-prima e um sucesso, principalmente depois de uma resenha favorável publicada no New York Times. A versão original de 1951 (escrita com máquina de escrever numa bobina única, sem uso de parágrafos, em 1951) foi publicada algum tempo depois. Acabo de adquirir uma tradução desse manuscrito original. Será uma de minhas futuras leituras.

Não vi o filme ainda. De modo que prefiro comenta-lo depois de assistir. Espero que o filme faça jus à obra literária, ainda que seja impossível retratar no tempo do filme todas as aventuras dos personagens do livro, mesmo a versão mais curta e clássica de 1957.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

'Rock Brasília" hoje à noite no Canal Brasil


Dica importante para os leitores. Hoje o filme Rock Brasília estreará às 22h no Canal Brasil. Trata-se do documentário de Vladimir Carvalho sobre a efervescente cena rock de Brasília nos anos 70 e 80, que gerou bandas como Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, além da banda Aborto Elétrico, banda que deu origem à Legião e ao Capital. O filme traz imagens e fotos antigas de Brasília e das bandas, e também entrevistas concedidas para Vladimir especialmente para o filme, tanto em imagens feitas pouco anteriores à finalização do filme como imagens gravadas em 1988, inclusive com Renato Russo. Há ainda trechos de shows das bandas e de reportagens de emissoras de TV.

O filme foi lançado nos cinemas em 21 de outubro de 2011 e em 2012 foi lançado em DVD. Mais detalhes neste blogue.

sábado, 7 de julho de 2012

Trilogia original de Indiana Jones sairá em Blu-Ray em 20 de setembro

A trilogia original de Indiana Jones finalmente sairá em Blu-Ray, em 20 de setembro, um ano depois da hexalogia Star Wars. Sairá na caixa da tetralogia, já incluído o filme da caveira de cristal, único lançado em Blu-Ray até hoje. Só que, ao contrário do que aconteceu com a saga Star Wars, Steven Spielberg não permitiu nenhuma alteração nos filmes originais. Nem mesmo no Caçadores da Arca Perdida, o primeiro da franquia. Apenas restaurações na imagem e no som foram permitidas. Ainda bem.

As imagens dos filmes da trilogia em HD estão sensacionais. Pelo menos é o que tenho visto, quando um deles é exibido em algum canal Telecine.